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Da Pesquisa à Inovação

Porque Devemos Priorizar o Emprego de Agentes Biológicos Endêmicos em Programas de Manejo Integrado de Pragas

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Ácaro Raoiella indica uma ameaça iminente à produção de Bananas e Coqueiros no Brasil. Foto (Crédito): Dra. Denise Návia (Embrapa/Cenargen)

No passado, a oferta de inimigos naturais teve um grande aumento com o advento dos programas de controle biológico clássico. Nesta modalidade de controle biológico, a busca por inimigos naturais deve ser realizada no local de origem da planta e/ou da praga-alvo, seguida pela introdução do agente biológico no país de interesse. Assim, desde o início da popularização do controle biológico, grande parte dos inimigos naturais utilizados eram exóticos, ou seja, foram introduzidos a partir de regiões geográficas distintas. Porém, nos últimos anos o debate sobre a necessidade real da introdução de espécies exóticas e o seu impacto na fauna e flora local tem aumentado.

Neste cenário, é importante considerar que existem vários riscos decorrentes de uma introdução mal planejada. Como muitos predadores são generalistas, ou seja, podem alimentar-se de diferentes presas, há a possibilidade de causarem impacto sobre espécies não alvo, afetando a sobrevivência e reprodução, inclusive dos organismos benéficos endêmicos (ou seja, próprios de cada local). Sabe-se que muitos predadores podem, inclusive, consumir formas imaturas de outras espécies de predadores, alcançando altas populações pela redução no número de competidores. Além disso, diferentes populações de uma mesma espécie podem variar quanto à capacidade reprodutiva, voracidade e patógenos que carregam, fatores que podem afetar a fauna local, exigindo parcimônia na introdução de populações oriundas de diferentes localidades. Introduções precipitadas podem prejudicar o conhecimento científico, já que muitas espécies são coletadas e descritas, sem que sejam feitos esforços para compreender sua biologia e potencial aplicação prática.

Para mitigar esses riscos, diversos países têm adotado regras mais rígidas durante o processo de avalição de potenciais espécies candidatas de predadores ou parasitoides exóticos em seu território. Como consequência inúmeras importações têm sido barradas. Inicialmente, em alguns países, essa análise mais rígida e criteriosa, foi apontada como uma das causas para significativa diminuição na utilização do controle biológico, observado nos anos 2000, após anos de aumento contínuo. Porém, logo após esta queda, a comercialização de inimigos naturais voltou a aumentar, mas desta vez com um quadro totalmente diferente. Forçadas pela fiscalização mais rígida, as empresas de controle biológico passaram a buscar organismos biológicos nativos em cada região, fazendo com que, atualmente a quantidade de inimigos naturais endêmicos disponíveis para comercialização, seja mais que o dobro dos exóticos.

Alguns dos benefícios do emprego de espécies endêmicas em programas de controle biológico aplicado são: (1) espécies nativas geralmente encontram-se em equilíbrio na teia alimentar, possuindo inimigos naturais capazes de controlá-los caso cheguem à áreas naturais; (2) com maiores dificuldades para introdução de espécies exóticas, os pesquisadores reduziram a frequência das caras buscas por predadores pelo mundo e passaram a olhar para seus próprios quintais e ver, ali, uma fonte preciosa; (3) o estímulo pela busca de inimigos naturais endêmicos pode favorecer o conhecimento sobre a fauna local, além de estimular pesquisadores a aprofundarem os estudos sobre as espécies que coletam.

Obviamente, o objetivo não é, e nem pode ser, criar um muro intransponível que proíba o intercâmbio de espécies benéficas entre os países. Porém, regras rígidas devem continuar sendo aplicadas e revisadas para cada localidade, exigindo que o pesquisador e/ou empresa interessado em introduzir determinada espécie comprove a necessidade e inocuidade daquela introdução. Além disso, o serviço quarentenário de cada localidade deve ser respeitado e utilizado com abundância e não menosprezado como muitas vezes ocorre hoje.

Por fim, antes de cada introdução, a comunidade cientifica local deve ser acionada e a possibilidade de se iniciar uma busca por inimigos naturais locais, deve ser sempre considerada. A integração entre pesquisadores, empresas e comunidade local tende a gerar bons frutos e muitos beneficiados: os produtores que terão um agente de controle para as pragas que os atormentam; as empresas de controle biológico que terão produtos únicos para comercialização; a fauna local que está sendo preservada; a economia que será fomentada pela contratação de profissionais locais durante os períodos de pesquisa e produção e, por fim, a ciência, por todo o conhecimento produzido ao longo do caminho! No Brasil as regras para a introdução de agentes benéficos exóticos são seguidas à risca pelas instituições públicas e privadas envolvidas com o processo, dando-se sempre a preferência pelo registro e emprego de agentes biológicos nativos.

Como ficam os ácaros neste cenário? Ao contrário da Europa, América do Norte e África, a América do Sul sempre priorizou a utilização de espécies benéficas próprias da região. As três espécies de ácaros predadores aqui comercializadas em larga escala, Phytoseiulus macropilisNeoseiulus californicus (ambas para o controle do ácaro rajado) e Stratiolaelaps scimitus(para o controle de pragas edáficas) são endêmicas e diferem daquelas comercializadas para os mesmos fins nos demais continentes (exceto N. californicus).

Um exemplo da preocupação que existe no Brasil em se priorizar espécies endêmicas, são os diversos esforços realizados para encontrar aqui predadores de ácaros fitófagos recém introduzidos ou ainda sem um método de controle efetivo. Um destes esforços está sendo realizado pelo MSc. Geovanny Barroso, que durante seu trabalho de doutorado na ESALQ/USP está buscando, no estado de São Paulo, inimigos naturais do ácaro fitófago Raoiella indica, uma importante praga de palmeiras. Apesar de ter sido registrada no Brasil há apenas alguns anos, esta praga já causa sérios danos. Este pesquisador reafirma vantagens de se buscar ácaros predadores nativos; “nosso país tem uma grande diversidade de inimigos naturais e isso se torna a principal vantagem… Além disso, inimigos naturais nativos já estão mais adaptados às condições ambientais do local, existindo uma grande chance de se encontrar uma população de um predador que seja capaz de reduzir a praga a níveis não econômicos”.

Outros exemplos de busca por ácaros predadores estão ocorrendo em todo o país, nos diversos centros de pesquisa em acarologia existentes no Brasil e todo este esforço é compensador. Afinal, além da vantagem natural, devido à nossa abundante biodiversidade, nosso país é rico em pesquisadores com muita motivação e vontade de buscar por novas soluções para o controle de pragas, contribuindo com a ciência e com uma sociedade melhor. Ressalta-se que também existem regras para a bioprospecção e uso de espécies endêmicas com potencial de uso para o controle biológico, as quais também devem ser observadas e seguidas à risca pelos pesquisadores e interessados em seu uso prático.

Para saber mais:

VAN Lenteren, J. C. The state of commercial augmentative biological control: plenty of natural enemies, but a frustrating lack of uptake. BioControl, v. 57, p. 1-20, 2012.

ACAROFAUNA EDÁFICA: UM ADMIRÁVEL MUNDO MICROSCÓPICO

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Diversidade de atrópodes extraída de amostra de solo (Crédito: Pollard, 2016)

Um dos mais importantes reservatórios da biodiversidade mundial está protegido de nossos olhos e escondido sob nossos pés: trata-se dos solos, tanto de áreas naturais, quanto cultivadas. A diversidade da fauna edáfica (nome que se refere aos organismos que ocorrem no solo) é tamanha, que a observação dos animais extraídos a partir de uma simples amostra de solo nos revela um mundo de formas e cores inimagináveis. Os microatrópodes que vivem no solo pertencem aos mais diversos grupos, com destaque para colêmbolos, adultos ou imaturos de insetos, isópodes, pequenas aranhas, pseudoescorpiões, opiliões, e ácaros, muitos ácaros!

Os mais abundantes representantes dos ácaros edáficos são os Oribatida (excluindo-se os Astigmatina), que podem se alimentar de fungos ou serem decompositores que atuam na ciclagem de nutrientes no solo, apresentando grande importância ecológica. Morfologicamente os Oribatida diferem dos demais grupos de ácaros por serem geralmente grandes, com tamanho variando de 150 a 2.000 micrômetros, muito esclerotizados e com coloração escura, geralmente amarronzados, mas podendo variar de amarelados a vermelhos.

Depois dos oribatídeos, o grupo mais abundante de ácaros encontrados no solo é a ordem Mesostigmata, formada majoritariamente por predadores que podem alimentar-se de uma ampla gama de presas, como outros ácaros, anelídeos, nematóides e pequenos insetos. Por serem predadores de tantos grupos diferentes e, portanto, estarem envolvidos em diversas teias alimentares, a presença e variedade dos Mesostigmata podem servir como um bioindicador ambiental, refletindo as condições gerais do solo, incluindo as características orgânicas e inorgânicas do ambiente.

Por serem vorazes predadores, os Mesostigmata edáficos há muito tempo despertam a atenção de pesquisadores que buscam a utilização destes organismos para o controle biológico de pragas. Para isso, diversos grupos de acarologistas no Brasil e no mundo tentam desvendar a diversidade destes predadores em áreas naturais e transportá-los para os ambientes agrícolas. Como resultado destes estudos, diversas espécies de predadores edáficos são hoje amplamente utilizadas em programas de controle biológico.

Um grande exemplo de sucesso na utilização destes predadores é representado pela família Laelapidae. A esta família pertence o gênero Stratiolaelaps, que possui duas espécies, S. scimitus e S. miles, dentre as mais comercializadas no mundo (existe uma discussão se realmente trata-se de duas espécies diferentes ou uma única espécie1). Estas espécies são mundialmente utilizadas para o controle de tripes, fungus gnats e outras moscas na produção de cogumelos e mudas, por exemplo. No Brasil, a espécie S. scimitus é comercializada pela Promip sob o nome comercial Stratiomip. Outras espécies da mesma família, Androlaelaps casalis e Gaeolaelaps aculeifer são comercializados em outras partes do mundo, mas não estão disponíveis no Brasil.

Apesar de o mercado mundial de predadores edáficos ser dominado por espécies da família Laelapidae, diversos pesquisadores trabalham para diversificar este cenário com a descoberta e desenvolvimento de novos predadores. Muitos desses avanços estão detalhados em um livro2 publicado recentemente, em que é discutido o potencial para a aplicação prática de diversos grupos de predadores edáficos, como Rhodacaroidea, Macrochelidae e Ascidae, por exemplo.

Apesar da maior diversidade, não podemos pensar que os Mesostigmata são os únicos predadores existentes no solo. Existe um outro grupo, denominado Prostigmata, que também abriga espécies predadoras! Inclusive, a família Bdellidae, que pertence aos Prostigmata, foi um dos primeiros ácaros da história a ser considerado para utilização em programas de controle biológico de pragas, sendo estudado e utilizado para o controle de algumas espécies de colêmbolos.

Como dito até agora, a maior parte dos ácaros edáficos são decompositores (Oribatida) ou predadores (Mesostigmata e Prostigmata). Mas neste ambiente, podemos encontrar, também, algumas espécies de ácaros que são “vilões”, atacando e danificando nossas culturas. Estas espécies de ácaros fitófagos pertencem principalmente ao grupo Astigmatina, mais precisamente ao gênero Rhizoglyphus e podem alimentar-se de bulbos, tubérculos e raízes. Para o controle destas pragas tem-se avaliado o uso dos mesmos predadores Mesostigmata já citados acima, com destaque para aqueles das famílias Laelapidae, Ascidae e Rhodacaridae.

Embora muito já se saiba sobre a acarofauna do solo, ainda há muito para se conhecer. Estudos constantes devem ser realizados para se decifrar, cada vez mais, o papel destes organismos como bioindicadores, predadores ou pragas. Porém, acima de tudo, o que deve mover os estudos com estes animais, deve ser nossa admiração e curiosidade para conhecer este mundo fantástico que se desenvolve entre cada partícula de solo, escondido dos nossos olhos e sob os nossos pés!

Para saber mais:

1 MOREIRA, G.F.; MORAES, G.J. The potential of free-living laelapid Mites (Mesostigmata: Laelapidae) as biological control agents. In: CARRILLO, D.; MORAES, G.J.; PEÑA, J.E. (Ed.). Prospects for biological control of plant feeding mites and other harmful organisms. Cham: Springer International, 2015. chap. 3, p. 77-102.

2 CARRILLO, D.; MORAES, G.J.; PEÑA, J.E. Prospects for biological control of plant feeding mites and other harmful organisms. Cham: Springer International, 2015. 328 p.

POLLARD, S. Spiders and other arachnids- Other arachnids- spider relatoves. Te Ara– The Encyclopedia of New Zealand. http://www.teara.govt.nz/en/photograph/12725/soil-mites (acessado em 10 de novembro de 2016).

A IMPORTÂNCIA DOS ÁCAROS PREDADORES DESDE A PRESERVAÇÃO AO CONTROLE BIOLÓGICO APLICADO

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Controle biológico pode ser definido como “um fenômeno natural que consiste na regulação do número de plantas ou animais por meio de agentes biológicos…”1. A expressão “fenômeno natural” ressalta que o controle biológico ocorre de forma espontânea na natureza, onde inimigos naturais agem todo o tempo: são os predadores que se alimentam de suas presas, parasitas que matam seus hospedeiros ou até fitófagos que impedem que as populações vegetais entrem em desequilíbrio.

Porém, nos agroecossistemas a perturbação deste equilíbrio ecológico favorece o estabelecimento e multiplicação de muitas espécies nocivas em detrimento dos inimigos naturais. Para ocorrer de forma satisfatória, o controle biológico necessita da intervenção humana atuando ao seu favor!

Alguns inimigos naturais podem ocorrer espontaneamente nos agroecossistemas, mas em uma densidade tão baixa que seu efeito como agentes de controle biológico é irrisório. Para auxiliar estes inimigos naturais, desenvolveu-se o chamado de “controle biológico natural”. Neste método, a população de inimigos naturais presente deve ser conservada e, sempre que possível, aumentada. Para isso, deve-se adotar estratégias que os beneficiem, como a aplicação de defensivos agrícolas na época correta ou em menor dosagem, a utilização de produtos seletivos (ou seja, que matam a praga-alvo mas não prejudicam o inimigo natural), preservar seus habitats, entre outras medidas. Embora existam poucos exemplos de controle biológico natural bem-sucedidos, em alguns casos ele apresenta um papel fundamental. Por exemplo, na Europa e Estados Unidos, o ácaro-vermelho-europeu, Panonychus ulmi, uma importante praga de macieira, tem sido controlada eficientemente utilizando algumas espécies de ácaros predadores fitoseídeos de ocorrência natural nestas regiões. No Brasil, a preservação dos ácaros predadores Euseius citrifoliusEuseius concordis e Iphiseiodes zuluagai também é um exemplo do controle biológico natural do ácaro-da-leprose-do-citros, Brevipalpus phoenicis, e do ácaro-da-falsa-ferrugem, Phyllocoptruta oleivora, na cultura dos citrus.

A maioria das espécies vegetais cultivadas são exóticas, isto é, trazidas de outras localidades para o Brasil. Durante o transporte é comum que pragas sejam levadas junto com o material vegetal, enquanto o mesmo raramente ocorre com os inimigos naturais. Isto levou ao desenvolvimento do “controle biológico clássico”, que consiste na busca por inimigos naturais na localidade de origem da praga que são, após um período de multiplicação em laboratório, liberados na nova área. Após a liberação, a situação ideal é o estabelecimento do inimigo natural, sendo este o maior desafio do controle biológico clássico.

Programas de controle biológico clássico já trouxeram ótimos resultados, como é o caso do controle biológico ácaro-verde-da-mandioca (o tetraniquídeo, Mononychellus tanajoa), um dos exemplos de programa de controle biológico mais bem-sucedidos da história. Quando a mandioca, originaria da América do Sul, foi introduzida na África, passou a sofrer fortes danos causados por esta praga. Na década de 80, a busca por predadores do ácaro-verde-da-mandioca envolveu pesquisadores de diversos países levando à introdução de mais 50 espécies de fitoseídeos coletados no continente sul-americano, inclusive no Brasil, das quais ao menos três se estabeleceram com muito sucesso e continuam atuando no controle desta praga até os dias atuais.

Por fim, temos o “controle biológico aplicado”, o tipo de controle biológico mais popular e amplamente utilizado, onde o inimigo natural comprovadamente eficiente é criado massalmente, ou seja, milhões de indivíduos são produzidos em biofábricas especializadas. Este método, além de muito eficiente, tem grande importância econômica, tanto pela economia gerada pelo controle da praga, quanto pelo mercado representado pelas biofábricas. Felizmente neste caso, não faltam exemplos de sucesso no Brasil. Por exemplo, o controle do ácaro rajado, Tetranychus urticae, estava se tornando cada vez mais difícil devido ao desenvolvimento de resistência a quase todos os produtos químicos disponíveis. Foi a utilização de predadores fitoseídeos que contornou esta situação calamitosa, diminuindo (muitas vezes até eliminando totalmente) a utilização de acaricidas. Há tanto para se falar e tantas informações sobre o uso de fitoseídeos contra ácaro rajado no Brasil, que voltaremos neste assunto num próximo texto, dando mais detalhes deste caso de grande sucesso!

É importante salientar que estes e outros programas de controle biológico são frutos de anos de dedicação e estudo.  Utilizar as informações produzidas por pesquisadores como alicerce para o desenvolvimento de programas de controle biológico é uma das grandes preocupações da Promip, que investe constantemente em pesquisa e inovação. Afinal, é dever de todos envolvidos com o agronegócio acreditar e trabalhar em prol de um futuro onde a produção agrícola seja cada vez mais limpa, respeitando o ambiente e pessoas envolvidas. E o controle biológico, com toda certeza, é uma das grandes armas utilizadas por aqueles que acreditam neste futuro!

1PARRA, J. R. P.; BOTELHO, P. S. M.; CORRÊA-FERREIRA, B. S.; BENTO, J. M. S. Controle Biológico: terminologia. In: José Roberto Postali Parra; Paulo Sérgio Machado Botelho; Beatriz Spalding Corrêa-Ferreira. (Org.). Controle biológico no Brasil: parasitóides e predadores. 1 ed. São Paulo: Manole, 2002, v. 1, p. 1-16.

Precisamos falar mais sobre os beneficos dos ácaros

Os ácaros, aracnídeos geralmente invisíveis a olho nu, formam um daqueles grupos do qual muito se ouve, mas muito pouco se conhece. Formando o segundo mais diverso grupo de animais (perdendo apenas para os insetos), existem cerca de 50.000 espécies de ácaros descritas, mas estima-se que o número real possa ser até dez vezes maior.

Apesar de serem quase onipresentes na Terra, talvez pelo seu pequeno tamanho, os ácaros são pouco conhecidos da população em geral e, nas situações em que são lembrados, quase sempre desempenham o papel de vilão. O exemplo mais famoso, é o dos temidos “ácaros de poeira”, que se multiplicam em nossas camas e travesseiros, sendo o pesadelo dos alérgicos. Famosos também são os carrapatos (que muitas pessoas, inclusive, nem associam carrapatos como ácaros!) e as espécies causadoras de sarna humana e animal, que por sua instalação, alimentação e possível transmissão de infecções, danificam a saúde do hospedeiro.

Por fim, temos os ácaros fitófagos, ou seja, aqueles que se alimentam de plantas. Embora menos conhecidos da população em geral do que as espécies que podem causar doenças, são velhos inimigos dos produtores agrícolas, especialmente daqueles que já tiveram sua lavoura atacada por estes animais quase invisíveis, mas muito danosos. Embora existam centenas de espécies de ácaros fitófagos, não mais do que 20 a 30 espécies podem ser consideradas pragas no Brasil. Porém, a aquisição de acaricidas para o controle destas poucas pragas rendeu, apenas em 2015, um lucro de quase US$117 milhões para o setor de defensivos agrícola no país, segundo informações do Instituto de Economia Agrícola (IEA).

A julgar pelos exemplos de ácaros mais bem conhecidos, pode-se pensar que trata-se de um grupo maléfico que deveria ser exterminado do planeta a qualquer custo É claro que isso está bem longe de ser a realidade! A imensa maioria dos ácaros presta um papel positivo no equilíbrio ecológico dos ambientes em que ocorrem, como os decompositores que são fundamentais na ciclagem de nutrientes em solos de mata natural, por exemplo. Além disso, existem espécies que podem ser efetivamente utilizadas para beneficiar atividade humanas e, neste grupo, entram os ácaros predadores que se alimentam dos temidos fitófagos. Estas espécies, cada vez mais requisitadas e utilizadas em programas de controle biológico, ao serem liberadas em culturas atacadas podem reduzir drasticamente a população da praga, tornando-se peças-chave no manejo integradoem várias culturas.

Dentre as espécies de ácaros predadores, destacam-se aquelas da família Phytoseiidae, encontrados principalmente na parte aérea de plantas como folhas, frutos e flores. Os fitoseídeos são predadores vorazes geralmente de coloração brilhante, fototrópicos negativos (ou seja, buscam lugares protegidos da luz), com movimentos rápidos e que usam o primeiro par de pernas como “antenas”, tateando o ambiente em busca de suas presas.

Atualmente existem cerca de 16 espécies desta família sendo regularmente comercializadas para controle biológico por empresas ao redor do mundo. No Brasil, as espécies de fitoseídeos mais importantes são Neoseiulus californicus e Phytoseiulus macropilis, utilizadas principalmente para o controle de ácaro rajado, Tetranychus urticae, em diferentes culturas como hortaliças (com destaque para morango, tomate e pimentão) e plantas ornamentais.

Além de controlar pragas da parte aérea de plantas, ácaros predadores podem, também, ser utilizadas para o controle de espécies edáficas. Neste caso, os fitoseídeos dão lugar a outras famílias de ácaros, adaptadas para viver e se locomover entre as partículas de solo, procurando neste local por suas presas. Neste grupo destaca-se a família Laelapidae, com a espécie Stratiolaelaps scimitus, comercializada por pelo menos 11 empresas em diversos países, incluindo o Brasil, para o controle de fungus gnats e tripes em mudas, flores e cogumelos, por exemplo.

Ácaro predador Stratiolaelaps scimitus (Stratiomip), agente utilizado para o controle biológico de fungus gnats e pupas de tripes no solo. Foto: Promip.

Não há dúvidas de que o momento atual é muito benéfico para o controle biológico, com um amento de mais de 15% ao ano entre 2011 e 2014, segundo dados da CPL Business Consultants. O incremento na utilização de ácaros para controle biológico deve ser incentivado através de várias ações, como a busca constante por novos predadores para pragas que ainda não podem ser controladas com inimigos naturais; desenvolvimento de técnicas cada vez mais eficientes de criação e transporte dos predadores e implementação de biofábricas em regiões mais remotas do país, aproximando-as cada vez mais dos produtores.

Porém, ainda mais importante do que todo o investimento em pesquisa e desenvolvimento, é desmistificar cada vez mais a ideia de que ácaros são sinônimo de problema e prejuízo! A situação está melhor do que nos primórdios do uso de ácaros predadores, quando os produtores tinham arrepio à simples menção de liberar ácaros na cultura. Mas ainda precisamos de mais: precisamos falar mais sobre os ácaros benéficos e mostrar que estes animais microscópicos podem ser usados a nosso favor, trabalhando para nós, enquanto planejamos o futuro!

A importância da pesquisa para o uso de polinizadores na agricultura

Por Cristiano Menezes.

Há muito tempo já sabemos que a maioria das plantas com flores depende de insetos e outros animais para produzir frutos e sementes. Também já sabemos que a produtividade de diversas culturas agrícolas está intimamente associada à presença de polinizadores na plantação. Então, o que está faltando para que os agricultores brasileiros adotem estratégias para aumentar a quantidade de polinizadores nas suas plantações e, consequentemente, sua produtividade? Em primeiro lugar, pesquisa; em segundo, pesquisa; e em terceiro, pesquisa.

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Pesquisas em andamento em Belém-PA, para desenvolvimento da criação comercial da espécie amazônica Plebeia minima, conhecida popularmente como abelha-mosquito. Essa pequena e dócil abelha é fácil de criar e excelente polinizadora de cupuaçu e açaí. Jovens pesquisadores como a doutoranda Jamille Veiga (foto acima) terão muito trabalho e oportunidades à frente.

Durante décadas as pesquisas acadêmicas mantiveram certa distância do setor produtivo. Os avanços no conhecimento produzidos pelas instituições brasileiras foram consistentes e de alta relevância para a academia e para formação de novos pesquisadores. Porém, muitos resultados demoravam para chegar aos produtores e, frequentemente, ficavam guardados nas gavetas das universidades. Mas esse cenário está mudando rapidamente e de forma irreversível. Cada vez mais a academia está percebendo a necessidade de se aproximar do setor produtivo para viabilizar suas pesquisas e as empresas percebendo que precisam do apoio dos cérebros da academia para inovar e se tornarem mais competitivas no mercado. Atualmente há dezenas de exemplos bem-sucedidos de incubadoras de empresa e parques tecnológicos associados às universidades promovendo mudanças consistentes nesse cenário.

O Brasil conta com muitos pesquisadores de excelência na área de biologia e manejo de abelhas. Por causa de pioneiros como o Dr. Warwick Kerr e o Dr. Paulo Nogueira Neto, o conhecimento sobre a biologia e manejo das abelhas, bem como o potencial dos polinizadores na agricultura já é bastante consistente e continua avançando rapidamente. A nossa apicultura é forte e conta com uma abelha altamente produtiva e resistente a doenças, as famosas abelhas africanizadas. Avançamos muito no conhecimento sobre a biologia e manejo das abelhas sem ferrão e atualmente há centenas de criadores espalhados por todo o Brasil aptos a atender à demanda. E não podemos esquecer das abelhas solitárias, que atualmente já podem ser atraídas por meio de ninhos-armadilha de forma sistemática e manejadas para polinização de culturas específicas, como a magangava para maracujá e abelhas Centris para acerola.

Duas culturas agrícolas já utilizam sistematicamente o serviço de polinização prestado por apicultores: maçã na região Sul e melão na região Norte. Mas o potencial de expansão é muito maior, tanto em culturas de larga escala, como algodão, girassol, café, canola e, inclusive, soja, como em culturas de pequena escala, mas com alto valor agregado, como morango, tomate, berinjela, maracujá, acerola, abacate, mirtilo, cupuaçu e açaí.

Ainda há muitos desafios práticos a serem superados por meio de pesquisa científica para tornar a polinização agrícola uma realidade nessas outras culturas. Por isso a presença dos pesquisadores no setor produtivo é fundamental para avançar. Isso representa uma oportunidade consistente para empreendedores de origem acadêmica que detêm o conhecimento e muitas vezes não percebem essa oportunidade.

O principal desafio é buscar alternativas para permitir a convivência harmônica entre os métodos de controle de pragas com presença desses polinizadores na plantação. Já existem diversas mecanismos de controle biológico à disposição e alternativas para minimizar o efeito negativo de produtos químicos aos polinizadores. Se a academia e o setor produtivo unirem forças para superar os desafios, todos sairão ganhando. Conseguiremos aumentar a produtividade no campo, com baixo investimento, utilizando as brasileiríssimas espécies nativas. Os pesquisadores verão seu conhecimento chegando à sociedade e gerando renda; os agricultores aumentarão sua produtividade e diminuirão seu custo de produção; novos mercados se abrirão para os empreendedores do agronegócio; e o consumidor terá à disposição alimentos mais saudáveis e de melhor qualidade.

Manejo Integrado de Pragas na cultura do Pimentão

Produção Integrada e o MIP como alternativa para a redução de resíduos químicos na cultura do pimentão

Nas últimas décadas, a humanidade tem experimentado de uma forma geral um notável aumento de sua qualidade de vida e um acesso quase infinito à informação, por meio da internet. É neste cenário que um novo tipo de consumidor vem se destacando, por meio da exigência de níveis de qualidade e confiabilidade dos produtos adquiridos. Portanto, para este novo consumidor, a qualidade e a segurança dos produtos, aferidas por meio de padrões estabelecidos por órgãos de controle de qualidade são cada vez importantes.

No Brasil, algo semelhante acontece, no entanto, com algumas peculiaridades. Observa-se que a sociedade se mostra bastante exigente com relação a bens de consumo duráveis, como eletro e eletrônicos e itens do vestuário. Porém, esta mesma sociedade parece não prestar a mesma atenção quando se trata de itens relacionados à sua alimentação. É muito comum o consumidor brasileiro buscar por frutas e hortaliças com base apenas na aparência externa e, principalmente, no menor preço. Este tipo de comportamento pode explicar, muitas vezes, a reduzida oferta de alimentos de qualidade superior, tendo em vista a baixa remuneração do produtor. Assim, alimentos de qualidade superior são produzidos em quantidades reduzidas e oferecidos apenas para pequenos nichos de mercado, principalmente na forma de alimentos orgânicos aos consumidores dispostos a pagar mais pelo produto.

Um caso que pode ilustrar bem este cenário é do pimentão, que nos últimos anos vem sendo considerado pela grande mídia nacional como o grande vilão da olericultura brasileira, por apresentar problemas relacionados à contaminação dos frutos com resíduos de agrotóxicos. Este problema teve início no ano de 2008 com a divulgação do relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), contendo os resultados da contaminação química de frutas e hortaliças amostradas em supermercados de 15 estados do Brasil, incluindo o Distrito Federal, onde o pimentão foi o primeiro colocado, com 64,36% de suas amostras com resultados insatisfatórios. Foram encontrados 22 ingredientes ativos utilizados na cultura, dos quais 18 não estão registrados e quatro com registro, porém, com limites máximos de resíduos (LMR’s) acima dos permitidos pela legislação. Nos anos seguintes, a situação tornou-se ainda pior, alcançando em 2010, o pico de 91,8% de amostras de pimentão com resultados insatisfatórios para resíduos químicos (Tabela 1).

TABELA 1. Relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com a percentagem de amostras de pimentão com resultados insatisfatórios no período de 2008 a 2011.

Cultura Número de amostras insatisfatórias no Período (%)
(2008) (2009) (2010) (2011)
Pimentão 64,4 80,0 91,8 90,0

É pensando neste tipo de cenário que surgiu a Produção Integrada (PI), criada na Europa no final da década de 1970, com base nos preceitos do Manejo Integrado de Pragas (MIP), principalmente no monitoramento constante das pragas e no uso de métodos alternativos de controle, a fim de obter uma agricultura mais sustentável e ecologicamente correta. Por definição, a PI é um tipo de produção econômica de alta qualidade, obtida por meio da priorização de métodos ecologicamente mais seguros, com redução dos efeitos colaterais e indesejáveis do uso de agroquímicos, para aumentar a proteção do ambiente e a saúde humana.

No Brasil, a PI iniciou com enfoque restrito à cadeia de frutas, sendo denominada Produção integrada de frutas (PIF). Posteriormente, em 2010, foi publicada a Instrução Normativa (IN) 27 do Mapa que ampliou o escopo da PI, criando a Produção Integrada Agropecuária (PI-Brasil), que passou a incluir não somente as frutas, mas também as cadeias de olerícolas, grãos, carne, leite e derivados.

A produção integrada está no mesmo patamar da produção orgânica no que se refere a alimentos de alto padrão de qualidade e segurança, considerados como alimentos do tipo Premium (Figura 1). A PI se baseia num tipo de processo de adesão voluntária, ou seja, ninguém é obrigado a aderir ao sistema, mas para os produtores interessados, existe o compromisso de cumprir todo um conjunto de normas técnicas específicas (NTE) construídas com base na Instrução Normativa nº. 20/2001 do Mapa, sobre as Diretrizes e Normas Técnicas Gerais da PI, as quais são auditadas nas propriedades rurais por certificadoras acreditadas pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).

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Fonte: OICB – 2004. Adaptado por A.R. Kososki, J.R. Andrigueto e L.C.B. Nasser.

Figura 1. Pirâmide de Qualidade de Alimentos da Organização Internacional para Controle Biológico e Integrado contra os Animais e Plantas Nocivas (OICB).

Com isso, os produtores rurais que seguem estas normas passam a receber o direito de usar um Selo de Qualidade com chancela oficial do Mapa e do Inmetro, assegurando que seus produtos estão de acordo com práticas sustentáveis de produção e, consequentemente, mais saudáveis para o consumo, garantindo ainda menor impacto ambiental do que produtos convencionais e a valorização da mão de obra rural (Figura 2).

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Figura 2. Selo da Produção Integrada Agropecuária (PI Brasil) (Fonte: Portaria: Inmetro, n.º 443, de 23 de novembro de 2011).

As Normas Técnicas são elaboradas para cada cultura e são construídas em parceria com os setores de pesquisa, extensão, ensino e produtores rurais, a fim de atender as peculiaridades de cada cultura e assegurar a obtenção de um produto diferenciado, com diversos benefícios para o setor produtivo, como por exemplo, a redução dos custos de produção, por meio da redução do uso de agrotóxicos e a maior organização da cadeia produtiva como um todo (Figura 3).

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Figura 3. Documentos elaborados para a Produção Integrada de Pimentão.

No caso especifico da cultura do pimentão, os problemas de resíduos de agrotóxicos nos frutos se deve principalmente pelo manejo ineficiente de pragas e doenças que ocorrem nessa cultura.

Dentre essas pragas merece destaque o ácaro rajado Tetranychus urticae (Tetranychidae), que ocorrem em grandes números principalmente nas regiões de clima quente e seco (Figura 4). Essa praga se torna ainda mais seria nos cultivos protegidos de pimentão, que tem encontra nesse ambiente as condições ideais para o seu desenvolvimento, ou seja, calor e proteção contra os fatores abióticos do clima.

promip manejo integrado de pragas controle biologico acaro

A

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B

Figura 4. A. Acaro adulto; B. Colônia de ácaro rajado em pimentão. Autoria das fotos: A. Flavia M.V.T. Clemente; B; Jorge A. Guimarães

Outras pragas também ocorrem no pimentão e merecem destaque, tais como o ácaro-branco (Polyphagotarsonemus latus), a mosca-branca (Bemisia tabaci), o pulgão verde (Myzus persicae) e os tripes (Frankliniella schultzei e Thrips palmi). Essas pragas causam danos diretos e indiretos a cultura (Figura 5). A mosca-branca, o pulgão e os tripes são importantes vetores de viroses e devem monitorados continuamente, para evitar a propagação de doenças.

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A e B

promip manejo integrado de pragas controle biologico acaros (1)

C

promip manejo integrado de pragas controle biologico manejo integrado de pragas na cultura do pimentao

D

Figura 5. Pragas do pimentão. A. Acaro branco. B. ovos de acaro branco na folha do pimentão. C. Colônia de pulgões verdes. D. Tripes na flor do pimentão. Autoria das Fotos: A, B, D: Alexandre Pinho de Moura. C, Jorge A. Guimarães

O manejo de pragas no pimentão é geralmente executado de maneira indiscriminada, de forma preventiva, por calendário e com uso de produtos não registrados para a cultura, causando desequilíbrios biológicos no agroecossistema, contaminação dos recursos naturais e dos frutos com resíduos químicos. Além disso, os frutos são coletados sem obedecer ao período de carência dos produtos, fazendo com que ocorra a presença de resíduos químicos.

Nesse caso, a PI atua por meio da regulação do uso de agrotóxicos para o controle de pragas, mediante o uso do monitoramento constante das populações de pragas e doenças. Com isto, os agrotóxicos somente serão aplicados quando realmente necessários, abolindo de vez a cultura dos calendários de aplicação de produtos químicos. Será elaborada a grade de produtos registrados para o pimentão, evitando que produtos sem registro sejam aplicados e, posteriormente, registrados como não conformidades em relatórios futuros das agências de fiscalização.

Além disso, a PI incentiva outras táticas de manejo para prevenir e regular as populações de pragas, entre elas o controle biológico é altamente incentivado, tendo em vista seu enorme potencial para auxiliar na regulação das principais pragas do pimentão, como por exemplo, o ácaro rajado que pode ser controlado satisfatoriamente com o uso do ácaro predador.

O controle cultural, com base na rotação de culturas, uso das plantas inseticidas, armadilhas adesivas para pragas voadoras e ainda as variedades resistentes são todas incentivadas pela PI como alternativas viáveis para auxiliar no manejo do pimentão, a fim de reduzir a dependência dos insumos químicos (Figura 6).

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Figura 6. Armadilhas adesivas na cultura do pimentão para o monitoramento de pragas. (Foto: Jorge A. Guimarães)

É importante salientar que a adesão à PI Brasil é voluntária, ou seja ninguém é obrigado a aderir a este sistema. Porém, aqueles produtores que tem como objetivo a produção de alimentos de qualidade superior e que pretendem oferecer aos consumidores um produto diferenciado devem aderir ao sistema e cumprir os requisitos necessários.

O produtor interessado na PI pode contatar o Mapa ou o Inmetro para saber como proceder na adoção deste sistema de produção, inclusive verificar se o produto que deseja produzir já possui norma técnica publicada. Se tiver, então o Inmetro fornecerá a lista de empresas acreditadas na certificação do produto. Caso não tenha norma, então o Mapa analisará a proposta do setor e construirá as diretrizes, as quais são elaboradas por colegiados formados por especialistas de órgãos públicos e privados, além de representantes de cooperativas e empresas. As regras estão relacionadas à capacitação de trabalhadores rurais, manejo, responsabilidade ambiental, segurança alimentar e do trabalho e rastreabilidade.

Com relação à PI pimentão, foi firmado um termo de cooperação entre o Mapa e a Embrapa Hortaliças com os seguintes objetivos: (1) instituir um Comitê Gestor do PI Pimentão; (2) elaborar as Normas Técnicas Específicas para a Produção Integrada de Pimentão, com base nas Diretrizes Gerais da Produção Integrada, estabelecidas pela Instrução Normativa no. 20/2001 do Mapa; (3) elaborar a grade de agrotóxicos registrados para a cultura do pimentão; (4) elaborar e adequar os cadernos de campo e pós-colheita; (5) realizar treinamentos para formação de técnicos multiplicadores e executores, bem como capacitar produtores para condução do sistema de PI Pimentão; (6) difundir as Boas Práticas Agrícolas e APPCC no cultivo de pimentão e (7) elaborar publicações técnicas para auxiliar na divulgação do sistema de PI Pimentão e dar suporte aos treinamentos (Figura 4).

Dessa forma, a equipe de pesquisadores da Embrapa Hortaliças, juntamente com os técnicos da Emater DF, vem trabalhando intensamente no desenvolvimento da Norma Técnica para atender as realidades da cadeia produtiva do pimentão. Numa primeira etapa, o termo de cooperação tratará principalmente da construção da norma propriamente dita, enquanto que na segunda etapa, após a publicação da Norma, o projeto atuará na divulgação e no treinamento dos produtores para adequação a esta nova realidade. Finalmente, numa terceira etapa o projeto atuará no processo de adesão e aplicação dos preceitos da norma nas propriedades interessadas.

Ao final do processo, espera-se que a Produção Integrada de Pimentão possa controlar os problemas encontrados atualmente e melhorar os processos de forma geral, a fim de beneficiar tanto os produtores, por meio de uma gestão mais eficiente e profissional de seu agronegócio, como também os consumidores, através da possibilidade de obter pimentões livres de resíduos, com qualidade superior, comprovada por meio do selo de qualidade da Produção Integrada.

O exemplo das mamangavas e o que devemos aprender para aplicar a meliponicultura na polinização

A utilização das abelhas do gênero Bombus para polinização de tomate é o melhor exemplo para vislumbrar o futuro da meliponicultura aplicada à polinização agrícola e fundamentar as ações das partes envolvidas.

Há cerca de 100 anos atrás, pesquisadores e naturalistas davam os primeiros passos no sentido de conhecer, domesticar e multiplicar colônias de Bombus, popularmente conhecidas como mamangavas. Jamais imaginariam que, 100 anos depois, mais de 1.000.000 de colônias seriam vendidas anualmente para a polinização de plantios de tomate.

Durante as primeiras décadas os esforços foram voltados para pesquisa básica, com o objetivo de conhecer a biologia reprodutiva das mamangavas. Os primeiros avanços foram conseguidos na fundação de colônias a partir de rainhas fecundadas coletadas no ambiente natural após o período de hibernação. Após longos períodos de investigação por diversos pesquisadores, acumulou-se um grande conhecimento sobre técnicas para estimular a postura por rainhas coletadas na natureza, aumentando o sucesso desses procedimentos e permitindo multiplicar as colônias.

Posteriormente, investiu-se no controle da cópula e do processo de hibernação das rainhas, que foram passos essenciais para produção de colônias em escala industrial. Quando a rainha atinge seu amadurecimento sexual é colocada em uma gaiola com alguns machos e, em condições ambientais adequadas, a cópula ocorre com sucesso. Depois ela é colocada em temperaturas baixas para estimular a hibernação, processo obrigatório no desenvolvimento das rainhas. Pesquisadores descobriram que bastava promover uma narcose de CO2 para interromper a hibernação das rainhas, permitindo assim iniciar novas colônias ao longo de todo o ano, não só no período de reprodução natural.

O próximo passo foi o aprimoramento das técnicas de crescimento das colônias recém fundadas, cujo principal problema era a alimentação suplementar. O pólen coletado a partir de colônias de Apis mellifera foi utilizado com sucesso pelas colônias de Bombus, desde que fosse oferecido fresco ou mantido congelado até sua utilização. O néctar foi eficientemente substituído por solução de açúcar 50%.

Apesar dos avanços significativos realizados em laboratório, os criadores comerciais de colônias enfrentaram muita dificuldade inicialmente para atender a grande demanda da polinização do tomate devido às altas taxas de insucesso na formação de novas colônias. Por isso, as grandes companhias investiram em pesquisa durante as últimas duas décadas, focando os detalhes refinados da ativação das rainhas e desenvolvimento das colônias. Com isso cada empresa desenvolveu sua própria tecnologia para criação comercial dessas abelhas, cujos detalhes não são divulgados por razões comerciais.

As mamangavas começaram a ser usadas na polinização de tomate por volta de 1985, na Europa. Os primeiros produtores de tomate que substituíram a polinização manual por polinização por abelhas Bombus conseguiram preços recordes em seus produtos porque os tomates produzidos através de polinização natural tem sabor melhor do que as frutas produzidas através de polinização manual, seja através de vibração ou tratamento com hormônios. Em pouco tempo o interesse por colônias aumentou extraordinariamente. Como ainda não era possível atender essa demanda, muitas pessoas começaram a coletar rainhas e colônias incipientes no ambiente natural, causando sérios impactos ambientais. Alguns países chegaram a proibir a atividade. Esses problemas ambientais só foram superados mediante os avanços tecnológicos realizados nas grandes companhias comerciais.

Logo vários outros países se interessaram na obtenção de colônias para polinização. Obviamente, o ideal seria que cada local produzisse suas próprias colônias utilizando as populações locais de abelhas para evitar hibridização, introdução de espécies não nativas e transmissão de doenças. Limitações governamentais ocorreram em diversos países para estimular o desenvolvimento de criações locais e dificultar as importações. Apesar das restrições, colônias têm sido introduzidas inclusive em locais onde elas não são nativas, como na Nova Zelândia, Japão e América Latina. Do ponto de vista industrial e comercial é muito mais vantajoso economicamente formar grandes centros de produção de colônias e transportar as colônias ao seu destino final.

O exemplo da utilização de Bombus na polinização de tomate evidencia que a tecnologia de criação e multiplicação das abelhas precisa estar suficientemente desenvolvida antes de serem divulgadas as aplicações. Caso contrário, as populações naturais dos polinizadores serão exaustivamente saqueadas.

O argumento principal para a conservação dos recursos naturais e da diversidade biológica é a preservação de benefícios potenciais para a humanidade. Assim, as pesquisas básicas sobre a biologia desses organismos deve ser prioridade, sem depender de argumentos envolvendo utilidade humana.

Os aprimoramentos na produção tecnológica são medidos somente por valores econômicos. Assim, novas tecnologias somente serão aceitas pelos agricultores se existirem perspectivas econômicas. Sem essa perspectiva, experimentos sobre as possibilidades biológicas para utilização de novos polinizadores são difíceis de tornar-se realidade.

Finalmente, o exemplo das mamangavas evidencia que houve problemas consideráveis causados pela dificuldade de comunicação entre pesquisadores, governos e agricultores, porque cada grupo possui diferentes prioridades

FONTE: Velthuis HHW. 2002 The Historical Background of the Domestication of the Bumble-Bee, Bombus Terrestris, and its Introduction in Agriculture. IN: Kevan P & Imperatriz Fonseca VL (eds) – Pollinating Bees – The Conservation Link Between Agriculture and Nature – Ministry of Environment / Brasília. p.177-184.

Bioinseticidas a base de Bacillus thuringiensis: Um caminho para a sustentabilidade

O aumento da produção agrícola para atender à crescente demanda por alimentos, exportação de grãos e seus subprodutos está relacionado ao uso intenso de insumos para reduzir as perdas, causadas por fatores bióticos e abióticos, durante o processo produtivo. Estes insumos tem grande impacto no agro ecossistema, e entre eles, os agrotóxicos, embora de grande importância no controle de pragas, são frequentemente utilizados em quantidades além da recomendada e sem orientação técnica, o que causa uma série de problemas ao ambiente, aos agricultores e consumidores, como por exemplo, efeitos sobre organismos não alvo, intoxicação de agricultores e seus familiares e presença de resíduos de agrotóxicos acima do permitido em alimentos consumidos in natura (Faria et al., 2007; PARA, 2013; PARA, 2014).

A crescente preocupação da sociedade com o efeito negativo dos agrotóxicos sobre o meio ambiente, saúde dos produtores e consumidores desencadeou a partir da década de 1960, a busca por uma base ecológica mais ampla e sustentável na proteção de plantas (Carson, 2002; Van Den Bosh, 1989). A intensificação dos estudos ecológicos e ênfase em novos métodos de controle de pragas levaram à concepção do Manejo Integrado de Pragas (MIP), que visa o uso racional dos agrotóxicos, somente quando necessários e na quantidade recomendada e também o emprego de outros métodos de controle, dentre os quais, o controle biológico se destaca pela sua alta eficiência de controle, pelo reduzido risco ao meio ambiente e à saúde humana (Brewer & Goodell, 2012; Kogan, 1988; Panizzi, 2013). Embora o MIP tenha contribuído para gerar e disponibilizar tecnologias altamente eficientes e de baixo custo ambiental para o controle de pragas agrícolas, o crescente uso de agrotóxicos no Brasil é uma realidade perturbadora.

Entre os agentes de controle biorracional disponíveis para o MIP a bactéria entomopatogênica Bacillus thuringiensis (Bt) é utilizada no controle lepidópteros e coleópteros pragas, seja na forma de bioinseticida ou como plantas transformadas expressando toxinas esta bactéria (Bravo et al., 2011; CAB Internacional Centre, 2010; Glare & O´Callagham, 2000; James, 2014).  Esta bactéria está presente em amostras de solos de áreas cultivadas com culturas anuais ou perenes, áreas desérticas, ambientes aquáticos, superfície e interior de plantas, restos vegetais, insetos e pequenos mamíferos mortos, teias de aranha, grãos armazenados e locais inabitados (Polanczyk, 2014). Devido à sua adaptação a diferentes habitats, Bt produz uma grande gama de substâncias que podem ser utilizadas para diversos fins, como por exemplo, controle de doenças fúngicas em plantas (Akram et al., 2013), biorremediação (Ozturk, 2007) e em estudos visando tratar células cancerígenas humanas (Poornima et al., 2010).

Este entomopatogeno também é bem conhecido pela habilidade de produzir inclusões cristalinas (cristais), que tem atraído atenção de pesquisadores em todo mundo devido a sua atividade inseticida (Schnepf et al., 1998). Desde a clonagem e sequenciamento dos primeiros genes das proteínas Cry (de cristal) na década de 1980, muitos outros foram caracterizados e agora são classificados de acordo com a nomenclatura de Crickmore et al. (1998). Bioinseticidas à base de Bt são utilizados com sucesso no controle de pragas desde a segunda metade do século XX (Rosas-Garcia, 2009; Sanahuja et al., 2011; Sanchis, 2011). Esta bactéria tem efeito letal e/ou subletal na fase jovem e/ou adulta de diversas ordens de insetos de importância agrícola: Coleoptera, Hymenoptera, Hemiptera, Isoptera, Lepidoptera e Orthoptera (Aboussaid et al., 2010; Bergamasco et al., 2013; Blanco et al., 2010; Panizi, 2013; Oppert et al., 2010; Porcar et al., 2007; Schünemann et al., 2014; van Frankenhuyzen, 2009; van Frankenhuyzen, 2013; van Frankenhuyzen & Tonon, 2013; Zhang et al., 2013). A sua atividade biológica também foi relatada para algumas espécies de ácaros praga, nematóides, protozoários, Ascaris suumBlatta orientalisLeishmania majorSchistosoma japonicum (Amanchi & Hussain, 2008; Berlitz et al., 2013; El-Sadawy et al., 2008; Gutiérrez & Gonçalves, 2006; Porcar et al., 2006; Radwan, 2007; Silveira et al., 2011; Urban Jr. et al., 2013).

A eficácia e especificidade das cepas de Bt e suas toxinas no controle de insetos praga, favoreceu a formulação de bioinseticidas à base deste patógeno e, desde o primeiro produto lançado na França em 1938, mais de 300 produtos à base de Bt são responsáveis por 53% do mercado mundial de bioinseticidas, gerando um faturamento anual de 210 milhões de dólares (CAB Internacional Centre, 2010). Porém, a participação dos bioinseticidas à base de Bt no mercado mundial de bioinseticidas diminuiu entre 2000 e 2010. Naquele ano a participação era de 90%, diminuindo para 60% em 2005 e para 53% em 2010. Essa redução ocorreu devido ao grande incremento no uso de vírus entomopatogênicos (+100%) e fungos entomopatogênicos (+52%) no controle de pragas agrícolas, enquanto que o mercado de produtos à base de Bt aumentou apenas 36%. O continente americano foi responsável por 50% deste mercado, principalmente os Estados Unidos e Canadá e a América Latina representa apenas 8 a 10% do total (CAB Internacional Centre, 2010).

O mercado brasileiro de Bt bioinseticidas até 2010/12 era caracterizado por um pouco mais de meia dúzia de produtos, recomendados para 24 espécies praga em 12 culturas, mas principalmente no controle de Anticarsia gemmatalis (Lepidoptera: Erebidae), Spodoptera frugiperda (Lepidoptera: Noctuidae) e P. xyllostella. O volume comercializado de 300 toneladas anuais gerou um faturamento de US$ 13 milhões (CAB International Center, 2010).

Nas últimas duas safras o mercado brasileiro de bioinseticidas de Bt sofreu um acréscimo expressivo alcançando cerca de 3,5 milhões de litros comercializados por safra o que corresponde a uma área pulverizada de aproximadamente 6 milhões de hectares, embora a adoção da soja resistente a A. gemmatalis possa reduzir este mercado nas próximas safras.

Estes números tornaram o Brasil o maior mercado mundial de Bt bioinseticidas e por consequência o Bt como o agente biorracional de controle mais utilizado

no controle de pragas agrícolas. Esta transformação no mercado de Bt bioinseticidas ocorreu, principalmente, devido à entrada e rápida disseminação no Brasil da Helicoverpa armigera (Lepidoptera: Noctuidae) e ao aumento da ocorrência de Chrysodeixis includens (Lepidoptera: Noctuidae) em áreas de soja. Porém, este incremento na utilização de Bt bioinseticidas não foi devido a um programa privado ou público de incentivo ao uso de produtos biológicos, mas foi motivado especialmente pela ineficiência dos inseticidas convencionais, o que forçou a busca dos agricultores por outras formas de controle.

Populações desta praga tem desenvolvido resistência a vários inseticidas, inclusive piretróides e também para alguns produtos recentemente lançados no mercado (Ahmad et al., 2003; Patil et al., 2006; Wu, 2007). Wyckhuys et. al. (2013) ressaltam que foram relatados 640 casos de resistência de populações desta praga a inseticidas no mundo, superando P. xylostella. A identificação incorreta desta espécie quando ocorreram os primeiros surtos no Brasil levou a escolha de inseticidas inadequados e a consequente ineficiência desta tática de controle. Muitas vezes, inicialmente o agricultor tende a aumentar o número de aplicações e a dosagem dos inseticidas empregados o que pode ter favorecido a evolução da resistência de populações desta praga aos inseticidas.

A possibilidade de utilizar bioinseticidas à base de Bt ou mesmo plantas Bt no controle de H.armigera não é uma novidade. Em países onde esta praga está amplamente disseminada existe um sistema de manejo que envolve monitoramento com feromônio sexual, plantas expressando toxinas de Bt, vírus de poliedrose nuclear (VPN), Trichogramma spp. e inseticidas (Downes & Mahon, 2012).

Van Frankenyuzen (2009) relata que as toxinas Cry1Ac, Cry1Ah, Cry1Eb, Cry1Ka, Cry2A(a,b,c) são tóxicas para Helicoverpa armigera enquanto que Cry1Aa, Cry1Ab, Cry1Ac, Cry1Ba, Cry1Bb, Cry1Ja, Cry1Jb e Cry2Aa são eficientes para C. includens. Com relação a H. armigera, Babu et al. (2002) compararam a toxicidade das toxinas Cry1Ac e Cry2Aa para lagartas neonatas de H. armigera e constataram que Cry1Ac é 6,5 vezes mais tóxica que Cry2Aa, porém Cry2Aa mata os insetos mais rapidamente. A maior suscetibilidade de H. armigera para Cry1Ac em relação as demais toxinas foi também relatada por Avisar et al. (2009) e Kranthi et al. (2001).

Devido à alta capacidade de migração de H. armigera, diferentes populações de podem se formar devido ao isolamento geográfico, com consequente isolamento reprodutivo, originando populações fisiologicamente diferentes. Estas diferenças fisiológicas podem influenciar a suscetibilidade às diversas táticas de controle o que implicaria na necessidade de elaboração de sistemas de manejo de acordo com a variabilidade populacional. Essa variação de resposta pode ocorrer para entomopatógenos conforme observado para populações de P. xylostella S. frugiperda oriundas de países da América Latina, Europa e de diferentes estados brasileiros (Gonzáles-Cabrera et al., 2001; Monnerat et al., 2006; Polanczyk et al., 2005).

Esta variabilidade foi demonstrada por Brevault et al. (2009) para as toxinas Cry1Ac e Cry2Ab2 em diferentes populações de H. armigera coletadas em Benine e Camarões (África). Kranthi et al. (2001) verificaram diferenças de suscetibilidade entre oito populações indianas de H.armigera para as toxinas Cry1Aa, Cry1Ab e Cry1Ac. Estes dados corroboram com os obtidos por Jalali et al. (2004) para Cry1Ac em estudo realizado com 13 populações indianas de H. armigera. Na Austrália, Bird et al. (2007) encontraram diferenças na suscetibilidade entre 17 populações desta praga para as toxinas Cry1Ac e Cry2Ab.

O bioinseticida Dipel® possui as toxinas Cry2A e Cry1Ac toxinas na sua composição em quantidades muito semelhantes. Estas duas toxinas atuam como dois ingredientes ativos, se ligando a sítios receptores diferentes, retardando a evolução da resistência de populações de H. armigera a estas toxinas. Além disso, a rápida degradação do Bt em campo também contribui para uma menor pressão de seleção sobre os indivíduos resistentes. A eficiência do Bt para esta praga chamou a atenção de empresas brasileiras o que acelerou a produção nacional de bioinseticidas a base de Bt, como é o caso do Best® e BtControl®. Entre 2010 e 2015 a quantidade destes bioinseticidas disponíveis no mercado brasileiro praticamente dobrou, sendo que no atualmente cerca 20 produtos estão registrados no MAPA e mais de 10 estão em fase de registro.

Mas isto não vai saturar o mercado com Bt bioinseticidas? A maioria destes produtos são a base de Bt kurstaki HD-1 em várias formulações (WG, SC, WP) que possuem basicamente as mesmas toxinas (Cry1Aa, Cry1Ab, Cry1Ac, Cry2Aa, Cry2Ab) em quantidades variáveis. As empresas brasileiras devem priorizar buscar novas toxinas Cry com atividade toxica para espécies praga importantes, embora isto demande tempo e investimento considerável, mas este esforço pode resultar em um produto eficaz e grande durabilidade comercial, como é o caso do Dipel. A Valent BioScience Comporation, por exemplo, está solicitando o registro nos EUA para o produto Sympatico® com seis toxinas Cry.

É importante ressaltar, que das mais de 700 toxinas Cry de Bt existentes (http://www.lifesci.sussex.ac.uk/home/Neil_Crickmore/Bt/) somente 58 foram testadas quanto a atividade inseticida para 70 espécies de lepidópteros praga, sendo que destas, 35 são sensíveis à toxina Cry1Aa, 45 à toxina Cry1Ab e 50 à toxina Cry1Ac, porem também são suscetíveis a outras toxinas Cry. P. xylostellaTrichoplusia ni (Lepidoptera: Noctuidae) e Ostrinia nubilalis (Lepidoptera: Crambidae) são as espécies suscetíveis ao maior número de toxinas Cry (Van Frankenyuzen, 2009; Van Frankenyuzen, 2013).

Deste grupo de toxinas, apenas oito são ingredientes ativos de bioinseticidas comercializados no mundo: Cry1A(a,b,c), Cry1B, Cry1C, Cry1D, Cry2A e Cry3A. Estas toxinas encontradas principalmente nas cepas Bt kurstaki, Bt aizawai Bt tenebrionis (Bravo et al, 2011). Entretanto este pequeno número de toxinas demonstra atividade toxica contra cerca de 200 lepidópteros praga em todo mundo, destruindo o paradigma do baixo espectro de ação do Bt. Portanto, o potencial desta bactéria como agente de controle biorracional é subestimado devido à grande quantidade de toxinas com atividade toxica desconhecida (90%) e ao pequeno número de toxinas utilizadas como ingrediente ativo de bioinseticidas (10%).

Bioinseticidas a base de Bt podem ser utilizados em cultivos com alta demanda de inseticidas, como forma de proteger o ambiente, agricultor e o consumidor dos malefícios do uso incorreto destes produtos. O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) foi iniciado em 2001 pela Anvisa, com o objetivo de avaliar continuamente os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos de origem vegetal que chegam à mesa do consumidor. O PARA é coordenado pela Anvisa que atua em conjunto com as Vigilâncias Sanitárias (VISA) e com os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacen). Desde 2001 o PARA analisou quase 25 mil amostras de 13 diferentes culturas (hortaliças e grandes culturas) com o objetivo de verificar a presença de 128 diferentes ingredientes ativos. Os resultados desde então demonstram um grande número de amostras reprovadas. Em 2012, 42% das amostras foram reprovadas por apresentarem resíduos de produtos não registrados para a cultura ou quantidade de resíduos acima do limite aceitável (PARA, 2014).

Quanto ao isso incorreto de agrotóxicos pelos agricultores entre 2007 e 2010 foi realizada uma pesquisa coordenada pela UFMT e FIOCRUZ em Lucas do Rio Verde (MT), onde foram avaliados alguns componentes ambientais, humano, animal e epidemiológico relacionados aos riscos dos agrotóxicos. A interpretação dos dados coletados levou os pesquisadores a constatações extremamente graves e preocupantes. Algumas constatações são elencadas a seguir. A exposição ambiental/ocupacional/alimentar foi de 136 litros de agrotóxicos por habitante durante o ano de 2010 (Moreira & Pigantti, 2010; Moreira et al., 2012). Aplicações de agrotóxicos foram realizadas a menos de 10 metros de fontes de água potável, córregos, de criação de animais e de residências, desrespeitando o antigo Decreto/MT/2283/09 que proibia pulverização por trator a 300 metros ou o atual Decreto/MT/1651/13 que proibi pulverização por trator a 90 metros destes locais e desrespeito à Instrução Normativa do MAPA 02/2008 que proibi pulverização aérea a 500 metros destes locais; Foi constatada a contaminação de resíduos de vários tipos de agrotóxicos em 83% dos 12 poços de água potável (escolas e cidade) e contaminação com agrotóxicos de 56% das amostras de chuva (pátio das escolas) e de 25% das amostras de ar (pátios das escolas) monitoradas por 02 anos (Moreira & Pignatti, 2010; Dos Santos et al., 2011; Moreira et al.2012).

Também foi constatada presença de resíduos de vários tipos de agrotóxicos em 88% das amostras de sangue e urina dos professores daquelas escolas, sendo que os níveis de resíduos nos professores que moravam e atuavam na zona rural foi o dobro dos professores que moravam e atuavam na zona urbana de Lucas do Rio Verde (Moreira & Pignatti, 2010; Belo et al., 2012). Além disso, foi constatada a contaminação com resíduos de agrotóxicos (DDE, Endosulfan, Deltametrina e DDT) de 100% das amostras de leite materno de 62 mães que pariram e amamentavam em Lucas do Rio Verde em 2010 (Palma 2011).

Infelizmente o quadro descrito acima não é uma exceção e demonstra claramente que não e mais possível “ produzir a todo custo” e que providências sérias e imediatas devem ser adotadas por entidades públicas e privadas com a finalidade de orientar o agricultor para que a agricultura não se torne uma atividade predatória e sim uma atividade economicamente e ecologicamente sustentável. Neste contexto produtos biorracionais como aqueles a base de Bt podem ser empregados com igual eficiência dos inseticidas convencionais com a vantagem de preservar o meio ambiente, incluindo os insetos parasitoides e predadores, além de permitir que o agricultor comercialize seus produtos sem resíduos. Portanto a utilização dos Bt bioinseticidas além de seguir as premissas do MIP, pode ser também considerada uma questão de saúde pública.

Bibliografia consultada

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ÁCAROS PREDADORES NO CONTROLE DE PRAGAS

A exigência do mercado consumidor por alimentos com alto padrão de qualidade e segurança alimentar tem alterado o paradigma de diversas cadeias produtivas no contexto da sustentabilidade técnica, ambiental e econômica. Como resposta, pesquisadores, extensionistas, técnicos e empresas ligadas ao setor produtivo agrícola, vêm buscando alternativas ao sistema convencional de produção, visando reduzir o uso de agrotóxicos para estimular o equilíbrio no agroecossistema. A adoção pelos sistemas alternativos de produção, como é o caso da produção integrada e da agricultura orgânica, tem favorecido consideravelmente a redução do uso de agrotóxicos. No caso da produção integrada o emprego de acaricidas, inseticidas e fungicidas é permitido, desde que sejam seguidas as normas técnicas estabelecidas para cada cultura. Por outro lado, na agricultura orgânica onde o uso de agrotóxicos é proibido, a adoção de estratégias alternativas ao controle químico é imprescindível.

Nesse cenário, o emprego de ácaros predadores tem se destacado em vários países, inclusive no Brasil, como ferramenta viável para o controle biológico aplicado de  ácaros e insetos-praga em diversas culturas, onde tradicionalmente o controle químico é é utilizado como estratégia exclusiva. Dentre os fatores que impulsionam o uso dos ácaros predadores para o manejo de pragas, destacam-se a inocuidade ao aplicador, meio ambiente e ao consumidor final, a possibilidade do manejo da resistência de ácaros e insetos-praga aos agrotóxicos e a isenção de um período de carência entre a aplicação (liberação do predador) e a colheita, o que é indispensável quando se emprega o controle químico. Além disso, os métodos empregados para liberação de ácaros predadores em campo são práticos e rápidos, permitindo com que o agricultor otimize seu tempo, gerenciando outras atividades em seu cultivo, além do controle de pragas.

As principais famílias de ácaros que contém espécies predadoras são Anystidae, Bdellidae, Cheyletidae, Cunaxidae, Phytoseiidae e Stigmaeidae (Yaninek & Moraes 1991, Gerson et al. 2003). Dentre esses, destacam-se os ácaros fitoseídeos, sendo que em todo mundo são conhecidas mais de 2.250 espécies, das quais cerca de 140 já foram reportadas no Brasil (Moraes et al. 2004).

Devido ao elevado potencial desses inimigos naturais, algumas espécies vêm sendo estudadas em diferentes países, observando-se que em alguns casos, a utilização desses agentes de controle biológico em programas de manejo de pragas apresenta-se em um estágio bastante avançado, empregando-se inclusive linhagens resistentes a agrotóxicos, fato esse que pode contribuir para o estabelecimento desses organismos, mesmo em áreas onde o uso de produtos químicos é realizado com freqüência (Hoy, 1985; Solomon et al., 1993; Blommers, 1994; Hardman et al., 2000).

ÁCAROS FITOSEÍDEOS

Os ácaros fitoseídeos (Acari: Phytoseiidae) raramente são maiores do que 0,5 mm quando adultos. Caracterizam-se taxonomicamente por apresentar nos estágios de deutoninfa e adulto um único escudo dorsal o qual apresenta um número máximo de 20 pares de setas. Nas pernas podem ser observadas “macrosetas”, que apresentam um tamanho significativamente maior do que as demais setas presentes nesse apêndice (Chant,1985).

Esses ácaros movem-se mais rapidamente do que suas presas e comumente são brilhantes. Possuem um ciclo de vida curto, sendo que em condições climáticas favoráveis e com boa disponibilidade de alimento, completam o desenvolvimento de ovo até adulto em aproximadamente uma semana. A maioria das espécies desta família apresenta um modo de reprodução denominado como pseudo-arrenotoquia ou parahaploidia. Neste tipo de reprodução, ambos os sexos são originários de ovos diplóides (2n) fecundados, porém, poucas horas após a fecundação, ocorre a perda do conjunto de cromossomos de origem paterna em alguns indivíduos, os quais darão origem aos machos haplóides (n) (Hoy, 1985). O período de oviposição geralmente varia entre 15 e 30 dias, sendo que as fêmeas ovipositam em média dois ovos por dia, dependendo da espécie e da fonte de alimento dentre outros fatores.

Os ácaros fitoseídeos podem ser divididos em quatro grupos distintos (I, II, III e IV), classificados de acordo com o hábito alimentar (McMurtry & Croft, 1997). Os predadores pertencentes ao grupo I são especialistas, alimentando-se exclusivamente de ácaros fitófagos do gênero Tetranychus. Destacam-se neste grupo, os fitoseídeos pertencentes ao gênero Phytoseiulus. Com relação aos ácaros do grupo II, são considerados predadores específicos de ácaros, porém, de modo contrário aos especialistas do grupo I, podem predar ácaros pertencentes a vários gêneros e famílias. Diferentes desses, os fitoseídeos pertencentes aos grupos III e IV são generalistas, podendo sobreviver e reproduzir-se sobre as mais diversas fontes de alimento tais como ácaros, pequenos insetos, pólen de plantas, fungos, etc. Os predadores do grupo IV levam uma pequena vantagem em termos reprodutivos, quando consomem apenas pólen de plantas, ao invés de presas ativas. Apesar dos ácaros fitoseídeos apresentarem diversos hábitos alimentares, nenhuma espécie causa injúrias às plantas.

EMPREGO DE ÁCAROS PREDADORES EM PROGRAMAS DE MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS

Controle Biológico do Ácaro Rajado

O ácaro rajado, Tetranychus urticae, é considerado praga-chave em diversas culturas de importância econômica (Moraes & Flechtmann, 2008). Esse artrópode normalmente apresenta coloração esverdeada, com duas manchas dorsais escuras, devido ao acúmulo de massa alimentar nestes pontos. Possui cinco fases de desenvolvimento sendo ovo, larva, protoninfa, deutoninfa e adulto. Seus ovos são esféricos e amarelados sendo postos entre fios de teia. Após a eclosão, as larvas são incolores, translúcidas e de tamanho igual ao do ovo, caracterizando-se por apresentar três pares de pernas, o que as diferencia dos demais estágios móveis imaturos (ninfas) os quais possuem quatro pares de pernas. As fêmeas adultas medem cerca de 0,50 mm de comprimento e os machos aproximadamente 0,25 mm, sendo facilmente diferenciado da fêmea por apresentar a parte posterior do corpo afilada. O período de desenvolvimento de ovo a adulto desse ácaro fitófago pode variar entre 5 e 50 dias, dependendo dos fatores ambientais.

Ao se alimentar do conteúdo celular, causa o amarelecimento da folha reduzindo a capacidade fotossintética da planta. Mesmo preferindo a parte abaxial da folha, onde produz uma grande quantidade de teia, causando manchas branco-prateadas, seu dano direto também pode ser evidenciado com facilidade na face superior da folha, observando-se nesse caso puncturas cloróticas as quais evoluem até o secamendo da folha. Inicialmente a colonização do ácaro rajado ocorre nas folhas mais velhas, porém após seu estabelecimento na cultura a população distribui-se por toda planta (Jeppson et al., 1975). Geralmente, quando a densidade populacional dessa praga atinge níveis elevados, e/ou durante as horas mais quentes do dia, os ácaros tendem a se dispersar para a parte superior da planta tecendo uma grande quantidade de teia, o que é facilmente visível. Climas quentes e secos favorecem as infestações dessa praga em campo.

As principais espécies de ácaros fitoseídeos utilizadas em programas de controle biológico aplicado do ácaro rajado são aquelas pertencentes aos Grupos I e II, quanto ao hábito alimentar, destacando-se: Phytoseiulus persimilisP. macropilisP. longipesNeoseiulus californicus Galendromus (=Metaseiulusoccidentalis. No Brasil, o emprego de N. californicus P. macropilis (Figura 1) tem se destacado na cultura do morango, crisântemo, gérbera, maçã e pêssego, dentre outras (Ferla et al., 2007; Poletti, 2007; Bellini et al., 2006; Sato et al., 2006; Monteiro, 2002; Watanabe et al., 1994).

Adultos destas duas espécies são facilmente diferenciados em campo, sendo que N. californicus normalmente apresenta coloração que varia de palha a amarelo-escuro e P. macropilis coloração avermelhada. Por outro lado nestas condições, N. californicus pode ser confundido com outras espécies tais como N. idaeusN. barkeri Amblyseius spp., as quais geralmente ocorrem no mesmo nicho. Neste caso, em programas de controle biológico onde N. californicus é utilizado em liberação massal, é importante que coletas de exemplares para a identificação em condições de laboratório sejam realizadas periodicamente, mantendo-se a qualidade do programa.

Além das diferenças morfológicas e taxonômicas entre N. californicus P. macropilis outro importante aspecto que diferencia essas espécies é o hábito alimentar (McMurtry e Croft, 1997). Apesar de N. californicus alimentar-se preferencialmente do ácaro rajado, na ausência desta presa pode consumir outras fontes de alimentos tais como pequenos insetos, outras espécies de ácaros fitófagos ou até mesmo pólen. Já o ácaro P. macropilis é especialista quanto ao hábito alimentar consumindo exclusivamente ácaros pertencentes ao gênero Tetranychus. Os ácaros especialistas reproduzem-se mais rapidamente do que os generalistas quando a disponibilidade de alimento é elevada. Quando a densidade populacional do ácaro rajado é baixa, P. macropilis normalmente se dispersa para fora da área de cultivo em busca de grande quantidade de alimento. Por outro lado, em condições de escassez da presa, N. californicus pode permanecer na cultura consumindo outras fontes de alimento. Em altas populações de T. urticae, há formação de grande quantidade de teia, o que afeta a mobilidade dos ácaros N. californicus, prejudicando o controle biológico exercido por essa espécie. O excesso de disponibilidade de alimento é outro fator que contribui para essa baixa migração dos predadores. Considerando-se as diferenças entre essas espécies, normalmente recomenda-se que N. californicus seja introduzido na cultura no início da infestação da praga. Nestas condições esse predador será capaz de manter a densidade populacional do ácaro rajado abaixo do nível de dano econômico por um longo período.

Com intuito de avaliar a eficiência agronômica de N. californicus para o controle biológico de ácaro rajado na cultura do morangueiro foi realizado um estudo em uma área de produção comercial de morangos situada no município de Estiva/MG (Bueno & Poletti, 2009). Para isso foram isolados dois canteiros com aproximadamente 50 m2 cada. Em um desses canteiros o controle do ácaro rajado foi realizado convencionalmente com o uso de acaricidas registrados para a cultura do morango. Na outra área o controle de T. urticae foi efetuado mediante liberações do ácaro predador, a partir do momento em que foram detectadas as primeiras reboleiras dessa praga. Em cada liberação foram introduzidos cinco N. californicus/m2. A flutuação populacional de T. urticae e de N. californicusforam estimadas contando-se o número total de formas móveis do ácaro fitófago e do predador em 25 folíolos em cada uma das áreas (convencional e controle biológico). As amostragens foram realizadas quinzenalmente durante um período de 100 dias.

A primeira liberação de N. californicus na área de controle biológico foi realizada um mês após o início do experimento (terceira amostragem), quando a densidade populacional de T. urticae era de aproximadamente duas formas móveis/folíolo (Figura 2). Mesmo após essa liberação, evidenciou-se aumento na infestação de T. urticae neste tratamento, sendo necessária uma segunda liberação a qual foi efetuada por ocasião da quinta amostragem, quando a densidade populacional de T. urticae atingiu seis ácaros rajado/folíolo.  Nas amostragens subseqüentes verificou-se aumento na densidade populacional do ácaro predador N. californicus e redução na infestação do ácaro rajado na área de controle biológico (Figura 2).  Por outro lado, na área com o uso de acaricidas (abamectin) não foi evidenciado controle desse ácaro-praga, sendo que na sétima amostragem a infestação nessa área foi de cerca 18 ácaros rajado/folíolo, sendo essa, 40 vezes superior à observada na área onde foram liberados os predadores (Figura 3). Esse resultado demonstrou que a introdução do ácaro predador N. californicus no início da infestação do ácaro rajado é eficiente, podendo manter a densidade populacional da presa abaixo do nível de dano econômico durante um longo período.

Para que a introdução de N. californicus seja realizada no momento correto é muito importante que a ocorrência do ácaro rajado seja monitorada periodicamente. Porém, verifica-se que o monitoramento desta praga ainda não é uma ferramenta amplamente utilizada, sendo que geralmente o seu controle é adotado somente quando o agricultor visualiza os primeiros sintomas de ataque (puncturas) na parte superior da folha. Nesse momento, o emprego de N. californicus nem sempre surte efeitos à curto prazo. Neste caso, recomenda-se que antes da introdução de N. californicus seja realizada a aplicação de um acaricida seletivo ou que seja realizada a introdução de P. macropilis, sendo que está é a única solução no caso da agricultura orgânica.

O uso de N. californicus P. macropilis também tem sido realizado isoladamente ou de forma combinada para o controle do ácaro rajado em plantas ornamentais. Um trabalho realizado na cultura do crisântemo demonstrou a viabilidade do emprego combinado de N. californicus P. macropilis quando a densidade populacional inicial do ácaro rajado foi igual ou superior a 10 ácaros/folíolo (Poletti, 2007). Nesse caso, em altas infestações da presa recomenda-se que P. macropilis seja introduzido inicialmente e que N. californicus seja introduzido quando a densidade populacional da praga atinja baixos níveis (< cinco ácaros rajados/folíolo). Nestas condições, N. californicus se multiplicará na cultura mantendo a praga em um nível que não cause dano econômico à cultura.

A viabilidade do emprego combinado de ácaros de N. californicus Phytoseiulus persimilis Athias-Henriot, que é uma espécie muito empregada para o controle biológico de T. urticae em cultivos de hortaliças e plantas ornamentais em vários países da Europa e Estados Unidos (Zhang & Sanderson, 1995; Zhang, 2003) também foi reportada por vários autores (Schausberger & Walzer, 2001; Blümel & Walzer, 2002; Rhodes et al., 2006).

Controle Biológico de Tripes e Mosca-branca

Os tripes e as moscas-brancas são importantes pragas em diversas culturas de importância econômica em várias partes do mundo. O sucesso no emprego dos ácaros predadores fitoseídeos para o controle biológico destas pragas tem sido reportado com freqüência, sendo que as principais espécies utilizadas com esse propósito são: Neoseiulus cucumeris, Iphiseius degenerans, Amblyseius swirskii e Neoseiulus barkeri.

  1. cucumeris é comercializado em vários países Europeus principalmente para o controle de Frankliniella occidentalis Thrips tabaci em cultivo protegido de hortaliças, destacando-se a cultura do pimentão e do pepino (Gerson et al., 2003). Esse ácaro predador está inserido no Grupo III, sendo generalista quanto ao comportamento alimentar (McMurtry & Croft, 1997). Os predadores pertencentes a esse grupo não são bons inimigos naturais de ácaros tetraniquídeos pelo fato de não conseguirem caminhar por entre a teia produzida por esses ácaros fitófagos. Além disso, trabalhos demonstraram que quando F. occidentalis ocorre concomitantemente com o T. urticae, as ninfas do tripes utilizam a teia produzida pelo ácaro rajado como refúgio, inibindo a predação realizada por N. cucumeris (Magalhães et al., 2007; Venzon et al., 2001).

O ácaro predador I. degenerans tem sido empregado com sucesso para controle de Scirtothrips citri em áreas de produção de mudas de citrus onde essa praga geralmente causa severos danos econômicos (Grafton-Cardwell et al., 1999). Em casas de vegetação de hortaliças o uso desse predador é menos explorado para o controle de tripes do que N. cucumeris, já que esse apresenta maior eficiência.

Nos últimos anos A. swirskii tem sido uma das principais espécies de predadores utilizadas no controle biológico de tripes e mosca-branca em cultivo protegido de hortaliças e plantas ornamentais na Europa (Bolckmans, 2005; Wimmer, 2008). Um estudo demonstrou que A. swirskii tem um ótimo desempenho quando F. occidentalis e a mosca-branca, Trialeurodes vaporariorum, ocorrem simultaneamente em cultivo protegido, do que quando cada praga ocorre isoladamente (Messelink et al., 2008). O ácaro A. swirskii também for reportado como um excelente predador de Bemisia tabaci, sendo que na ausência dessa presa o mesmo pode manter-se na cultura consumindo alimentos alternativos tal como em pólen de plantas (Nomikou, 2003).

  1. barkeri (= Amblyseius mckenziei) também é considerado um predador com bom desempenho no controle biológico de tripes, F. occidentalis T. tabaci, sendo que dentre as quatro espécies citadas é o único que já foi reportado no Brasil (Moraes et al. 2004). Um aspecto importante é que além de consumir ninfas de tripes esse ácaro predador também pode controlar ácaros tarsonemídeos tais como o ácaro branco Polyphagotarsonemus latus que é uma importante praga em cultivo de várias hortaliças e plantas ornamentais no Brasil (Moraes & Flechtmann, 2008). A eficiência desse predador no controle de P. latus foi reportada em cultivo protegido de pimenta na Flórida/EUA (Fan & Pettit, 1994). Em culturas como a do pimentão, onde as duas principais pragas são o ácaro branco e tripes, o uso de N. barkeri pode ser uma importante ferramenta em programas de manejo de pragas.

Controle Biológico de Fungus Gnats

Uma praga de solo que atualmente tem causado sérios problemas em sistemas de cultivo protegido para produção de mudas de várias hortaliças, plantas ornamentais e fruteiras é uma mosca pertencente à família Sciaridae. Esse inseto é conhecido como fungus gnats, sendo que no Brasil a espécie mais encontrada é Bradysia matogrossensis. O termo fungus gnats é utilizado, pois esse inseto normalmente se alimenta de fungos encontrados no solo. Os adultos são moscas de pouco mais de 2 mm, que possuem asas escuras e antenas longas. Esses insetos possuem dificuldade em voar, permanecendo próximos ao substrato ou bancadas das casas-de-vegetação. Cada fêmea coloca cerca de 150 ovos no substrato, entre três e quatro dias eclodem as larvas, que são delgadas com a cabeça preta e corpo liso semi-transparente revelando o conteúdo do trato digestivo. O desenvolvimento dessas larvas é de aproximadamente 14 dias. Durante esse período além do dano direto nas raízes o ataque desse inseto pode deixar as mudas mais vulneráveis a doenças no sistema radicular. As moscas adultas também podem causar prejuízos na produção de mudas atuando na disseminação de fungos fitopatogênicos entre as plantas. Um problema relacionado a essa praga é que os sintomas de seu ataque podem ser confundidos com a ocorrência de doenças, dificultando o seu controle.

Uma alternativa para o manejo dessas moscas é o uso dos ácaros predadores de solo, cuja principal família é Laelapidae. Dentre as espécies que apresentam potencial para o controle de fungus gnats, destaca-se Stratiolaelaps scimitus, sendo que esse predador alimenta-se preferencialmente de larvas e ovos dessa praga (Freire, 2007) (Figura 4). Esse ácaro predador é comercializado em vários países da Europa e América do Norte. No Brasil, devido aos avanços científicos nos estudos com esses ácaros, o emprego prático para o controle dessa mosca tem se mostrado bastante promissor. Uma das recomendações é que a liberação inundativa desses ácaros seja realizada logo após o plantio das mudas, quando a densidade populacional da praga ainda é baixa, o que pode garantir o sucesso em programas de manejo. A utilização de armadilhas amarelas pode contribuir com o monitoramento de adultos dessa mosca, indicando sua presença no sistema de produção.

Com objetivo de avaliar a eficiência do predador S. scimitus no controle de fungus gnats foi realizado um trabalho em uma área de produção comercial de mudas de azaléia em Holambra/SP (Bueno & Poletti, 2009). Nesse estudo foi comparado o efeito da liberação de 200 ácaros predadores/me o controle convencional de fungus gnats com os inseticidas deltametrina e diflubenzurom. Esses tratamentos foram mantidos em áreas isoladas, sendo que em cada área foram instaladas 20 armadilhas adesivas amarelas para o monitoramento dos insetos adultos. A contagem do número de insetos nas armadilhas foi realizada aos 15, 30 e 45 dias após o início do experimento. Ao final desse período o número de moscas encontradas na área convencional foi cerca de três vezes superior ao encontrado na área onde os predadores foram liberados (Figura 5). Trabalhos realizados para avaliar a liberação de S. scimitus em cultivo de cogumelo também demonstraram efeito positivo na redução de B. matogrossensis, o que tem incentivado produtores a utilizar essa estratégia de controle na prática (Freire et al., 2007; Castilho et al., 2009).

MÉTODOS PARA LIBERAÇÃO DE ÁCAROS PREDADORES

Para liberação dos ácaros predadores em campo, geralmente esses organismos são acondicionados em frascos, plásticos ou de papelão, contendo material inerte (casca de arroz, sabugo de milho triturado ou vermiculita) (Figura 6). Além de facilitar a distribuição dos predadores em campo, o uso desse material também é importante para permitir a sobrevivência dos ácaros durante o transporte. Normalmente os frascos utilizados para essa finalidade apresentam um furo na tampa, o qual é vedado com tecido “voil” ou tecido não tecido (TNT), permitindo a troca gasosa e ventilação do conteúdo interno do frasco durante o transporte, o qual geralmente é realizado utilizando-se caixas térmicas de poliestireno. Durante o transporte os frascos devem permanecer no sentido horizontal dentro das caixas de poliestireno, isso para aumentar a área útil para os predadores, evitando o canibalismo.

Para a distribuição dos predadores, recomenda-se que cada frasco seja agitado, para homogeneizar a distribuição dos mesmos no conteúdo da embalagem. Logo após, o frasco deve ser aberto cautelosamente e seu conteúdo distribuído diretamente sobre as plantas ou no solo, no caso dos ácaros predadores edáficos. Normalmente a liberação em campo é um processo rápido e confortável para o agricultor, não exigindo o uso de equipamento de proteção individual (EPI) durante sua aplicação, o que é imprescindível durante a aplicação de agrotóxicos.

Os ácaros predadores também podem ser distribuídos em campo em saches os quais são pendurados nas plantas. Empresas européias de controle biológico têm utilizado esse tipo de embalagem, principalmente para liberação de ácaros generalistas, tais como N. cucumeris A. swirskii. Nesse tipo de embalagem, geralmente além de vermiculita como substrato inerte, também é adicionado o ácaro Tyrophagus putrescentiae ou Carpoglyphus lactis (Acari: Acaridae) ambos com coloração esbranquiçada (Flechtmann, 1986). Esses ácaros são utilizados como alimento alternativo aos predadores durante o transporte. Quando essas embalagens são distribuídas em campo, uma pequena abertura permite a saída dos predadores. Esse processo normalmente é lento podendo levar semanas. Devido à presença de alimento alternativo nessas embalagens, os predadores continuam reproduzindo-se no interior dos saches. Esse método tem sido denominado pelas empresas de controle biológico com método de liberação lenta de ácaros predadores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nos últimos anos, o uso dos ácaros predadores tem se consolidado como ferramenta importante para o sucesso de programas de manejo de pragas em diversos países. Inúmeras biofábricas produzem e distribuem esses inimigos naturais em várias partes do mundo. No Brasil, trabalhos científicos realizados em centros de pesquisas e/ou universidades públicas e privadas têm revelado o potencial dos ácaros predadores para o manejo de ácaros e insetos-praga, o que tem despertado o interesse de técnicos e agricultores ligados ao setor. Para suprir a demanda por esses agentes de controle, começam a surgir no Brasil as primeiras biofábricas que se dedicam à produção massal desses organismos, como é o caso da Promip. No entanto, para que esses inimigos naturais sejam utilizados de maneira correta, a orientação e o suporte técnico são muito importantes.

Nesse caso, além de produzir e colocar no mercado ácaros predadores, as biofábricas ao lado de centros de pesquisas, universidades e órgãos de extensão rural assumem um importante papel na difusão desta tecnologia aos agricultores e/ou empresas de produção agrícola. Nesta inter-relação os centros de pesquisas e as universidades são responsáveis por gerar pacotes tecnológicos, os quais serão fabricados pelas empresas de controle biológico que ao lado dos órgãos de extensão devem dar o suporte técnico e apoio ao produtor para que o mesmo utilize esta ferramenta de maneira sustentável, preservando sua eficiência à longo prazo.

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(*) Texto publicado originalmente como Capítulo de Livro:

POLETTI, M. 2010. Ácaros predadores no controle de pragas. In: VENZON, M.; PAULA JÚNIOR, T. J.; PALLINI, A. (Eds). Controle alternativo de pragas e doenças na agricultura orgânica. Viçosa: EPAMIG, p.213-231.

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